quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

VOCAÇÃO X SOLIDÃO... COMO VOCÊ ENCARA?

Na noite de ontem (terça, 8 de fevereiro) tive a oportunidade de conversar via internet com um amigo que não via (quer dizer, ainda não vejo) há muito tempo. Era um colega dos bons tempos de Pastoral da Juventude, instrutor de cursos, da mesma área em que eu atuava, e um grande "ajudador". Era assim que chamávamos aqueles que estavam sempre prontas a ser um "ombro amigo", um apoiador de idéias, um alguém pronto a dar sugestões (muito boas por sinal) que levassem os outros à uma vida melhor.
O tema da conversa acabou, naturalmente, versando sobre as pessoas que ajudamos naquela época, os jovens que contaram com nosso apoio motivacional e que hoje são grandes profissionais, religiosos ou politicos. Fiquei até surpreso, confesso, ao desfiar um enorme rosário de nomes e apelidos... a lista é enorme, graças a Deus, mas eu nunca tinha parado para avaliar o alcance disto.
Só que meu amigo não estava muito bem, e deu para notar isso durante a conversa. Uma certa atitude depressiva, triste, diria até magoada, era sentida em suas palavras. Era como se ele tivesse acabado de ganhar na loteria e descobrisse que estava numa ilha, onde não tinha como usar o dinheiro (já imaginou um troço destes?..rsrsrs).
Não resisti e tratei de fazer a minha "eliciação", uma investigação bem sutil do que estava acontecendo, e não demorou muito para que ele se abrisse. Se sentia só, e de certa forma magoado com as pessoas a quem havia ajudado. Via gente que um dia precisou dele, em algum momento dificil, mas que agora está se divertindo, namorando, brincando, ganhando dinheiro... e ele não era convidado a "participar da festa".
Meu amigo, que vamos chamar aqui de Walter somente para proteger sua identidade, estava passando por uma fase carregada de conflitos. Ao mesmo tempo em que sentia um gostoso saudosismo e uma agradavel sensação de que havia feito o que podia pelos jovens enquanto membro da PJ, não se conformava com o fato de que todos (literalmente todos) os que haviam "passado por suas mãos" sequer mantinham contato com ele. "Fica uma desagradável sensação de que a gente é importante apenas quando é necessário, e depois pode ser descartado... não é triste isso?", questionou.
Bem, querido(a) leitor(a) deste blog. Talvez você também já tenha sentido isso de alguma forma, talvez já tenha se dedicado a alguém com todo o seu entusiasmo, todo o seu coração, e sinta o mesmo que meu amigo. Isso pode acontecer com amigos, parentes (aquela tia que faz tudo pelo sobrinho e depois de um certo tempo nem é lembrada no Natal, ou ainda, em casos mais extremos, os pais que são simplesmente esquecidos pelos filhos...), ou simplesmente pessoas que você considera especiais.
Para vocês e para todos os que passam por isso, devo dizer apenas uma coisa: o sentimento que te aflige não está relacionado ao que estas pessoas fizeram (ou deixaram de fazer), ou pelo fato delas terem "sumido" de sua convivência, mas apenas por um fator: pelas expectativas que VOCÊ formou quanto a estes relacionamentos.
No Eneagrama (um dos cursos que ministro) existe um tipo que ilustra bem isso: O Tipo 2 - chamado por mim de "bonzinho interesseiro". Essa personalidade é bem comum em nossos dias, mas principalmente em áreas como a religiosa, a da saúde, da politiica... São pessoas que fazem TUDO pelos outros, e fazem questão de que isso seja muito bem divulgado e valorizado. O problema com estas pessoas é que geralmente sentimentos de mágoa e até mesmo de raiva incontida se tornam fortemente ativos quando não há RETORNO. "Depois de tudo que fiz por voce...?", é a frase preferida delas. Nem sempre (quando não nunca) esse retorno ocorre, principalmente do jeito que elas esperam (cá entre, tem gente que quer ser colocada num pedestal ou num trono por aquilo que fizeram pelos outros).
E isto se torna ainda mais dificil quando você se dedica deixando bem claro que NÃO ESPERA PAGAMENTO DE QUALQUER ESPÉCIE por isso. Ora.. se já deixou isso bem claro, porque cobrar agora?
Muitos de nós confundem "Vocação para ajudador" com o uso deste talento para conseguir amigos. Costumo dizer que ajudadores não tem amigos, mas sim "clientes muito queridos". Um médico salva a vida de uma pessoa e espera nunca mais vê-lo no hospital. Se encontrar num bar ou na rua e for cumprimentado, ótimo, mas independente disso, o fato desta pessoa "estar" na rua ou se divertindo no bar  já é motivo de comemoração. Um psicólogo ajuda uma pessoa a resolver seus conflitos e já se prepara para o próximo desafio. Dificilmente vai cobrar de seus ex-pacientes que passem a ligar todos os dias ou enviar e-mails. Já imaginou se os professores quisessem que todos os alunos que foram seus pupilos os colocassem como primeiros da lista em tudo que fossem fazer? Não teria como atender a nenhum convite.
Utilizando uma metáfora do mundo mítico, um cupido acerta sua flechada para que um casal se una e seja feliz, não para que um dos dois se apaixone por ele.
"Ah, mas eu quero mesmo é ter amigos", alguém pode dizer... Então mude a estratégia. Que tal procurar se enturmar com pessoas que tenham atividades em comum com as suas ou que sejam compatíveis com você? Se é para sair, se divertir, curtir, pra que transformar o espaço onde vocês estão em consultório ou clinica de atendimento especial?
Pare de restringir seu círculo a dependentes de suas habilidades, e trate de simplesmente viver, pensar em si mesmo(a), sorrir, brincar. Não tem pessoas dispostas a isso ou você está tão acostumado com a vida que leva que não consegue (ainda) pensar em algo diferente? Busque alternativas, saia do lugar comum, vá para novos locais, onde ninguém saiba que você é médico, consultor, padre, psicólogo, pastor, enfim.. um ajudador.
Ou então aprenda a ser SÓ, mas sem ser SOLITÁRIO(A). Aprenda a sair por sair, a curtir seus momentos consigo mesmo(a), mas aberto á presença de outras pessoas, sem definir quem pode ou não pode se aproximar. Você pode ir a uma festa sozinho, mas se divertir com as centenas de pessoas que estiverem lá, ora bolas...
Claro que isso tudo vale para quem tem mesmo o que eu disse acima: "vocação para ajudador", porque se for apenas um "bonzinho interesseiro" não vai dar certo...
Porque posso dizer tudo isso?
Fácil! Porque passo por situações similares as usadas como fonte de reclamações pelo meu amigo Walter.  Não foram e não são poucas (e no que depender de mim com certeza ainda existirão muitas) as pessoas que se afastam de minha presença depois que conseguem se reequilibrar após momentos dificeis, ou conquistam um grande amor, ou o emprego dos sonhos... mas não foi exatamente para isso que me propus ajudá-las quando elas precisaram?
Aprendam, ajudadores de plantão: É uma delicia saber que precisam de nós, mesmo sabendo que seremos esquecidos quando não mais necessários. E, melhor ainda, é ver que boa parte do sucesso, da saúde ou da alegria de alguém se deve à sua colaboração incondicional. ISSO É VOCAÇÃO!

Em tempo: E não importa se as pessoas só te procuram quando estão ávidas por sua ajuda. Um médico não vai deixar de atender a um paciente só porque ele não lhe mandou um cartão de agradecimento depois da primeira vez. Se alguém te procura, meu querido amigo(a), é porque sabe que você é CAPAZ de ajudá-lo(a) e, acima de tudo, CONFIA em você.
Guarde bem isso no seu coração!

"Minha querida alma, seja fonte de entrega e amor incondicional"

3 comentários:

  1. Puxa... conheço um bocado de gente aqui na minha cidade que precisaria ler isso, Toninho. Para mim, já serviu como alerta para muitas cobranças que faço. Mas tenho uma perguntinha...rsrsrsrs:
    As pessoas que se afastam de quem as ajuda não acabam sendo meramente egoistas e mal-agradecidas, de qualquer forma?

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  2. Oi, Carolzinha...
    Bem... podemos dizer que sim, podemos dizer que não. É ums questão de julgamento no qual eu não entraria agora (talvez num outro post...rsrsrs).
    Vamos colocar da seguinte maneira:
    - Tem pessoas que sabem que vc é uma pessoa que pode ajudá-la, de alguma maneira, a enfrentar um momento dificil, a sair de uma depressão, a passar dicas para relacionamentos... e se aproxima de vc exatamente para conseguir isso. Depois que conseguem se afastam, fazem de conta que não te conhecem... isso existe!
    Sinal de egoismo? Sinal de que te usou? Pode ser... mas não é este o foco do post. O que foco é o que VOCÊ quer ao ajudar esta pessoa!
    Alguém que resolva ajudar porque está interessada na pessoa (ou seja, com segundas intenções) vai se sentir "abandonado(a)" quando ela se afastar... mas cá entre nós: pra que ajudou-a a encarar seus medos então?
    Já alguém que auxiliou a pessoa porque encarou o fato como um desafio, na espera de que mudanças ocorressem, vai encarar o "sumiço" como um bom sinal.
    Entende o que digo?
    Se a outra pessoa é egoista ou não, neste caso aqui não importa. O que importa é a sua intenção ao se envolver com ela (e aí, sim... será que VOCÊ, EU OU QUALQUER AJUDADOR não acabamos agindo nós, como egoistas, ao cobrar desta pessoa uma postura que ela nunca prometeu que teria conosco?).
    Pense nisso, ok?

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  3. Muito boa esta colcoação Antonio Carlos. Sigo seu blog sempre, e a cada post admiro mais seu trabalho.

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