terça-feira, 26 de outubro de 2010

UMA PEDRA E UM "INSIGHT" - A INTENÇÃO POR TRÁS DO COMPORTAMENTO

Tudo o que eu queria era brincar de Tarzan com meus amigos. O barranco da linha férrea, nosso ponto de encontro favorito para as brincadeiras que iam de bang bang ao zorro, estava à nossa espera.
Estranhamente, meu velho não quis deixar...
Ele, na verdade, nunca se preocupou muito para onde eu ia ou deixava de ir. Achava até que nem ligava muito pra mim...mas naquele dia foi enfático. "Não vai, ou apanha".
Lembro-me bem da cena. Meu pai, já arcado pelo peso dos anos, puxando o cinto para me atingir. Eu, na minha leveza dos 11 anos de idade, saindo em desabalada carreira para encontrar minha turma. Imaginava que depois, como sempre acontecia, bastava se esconder atrás da minha mãe e... pronto, tudo estava resolvido.
Só não contava com a boa pontaria do velho...
Um pedaço de telha, jogado a uma distância de 15 metros... e lá estava eu no chão, atingido em cheio no calcanhar. O pé inchou na hora, a dor era insuportavel. Vêm meus tios correndo e me socorrem, xingam meu pai, chamam-no de louco. Eu, nos meus berros que misturavam raiva e decepção por não poder brincar, também o xingava. Ele apenas sentou-se na mesa da cozinha e começou a chorar...
"Arrependeu-se" - pensei. "Bem feito".
E ainda aumentei as cenas de dor, so pra ver o sofrimento do meu agressor ainda mais nitido.
Tive que ir ao médico, fiquei com o pé enfaixado por um mês inteiro. Não houve corte, mas a queda provocou uma leve luxação no pé, que ficou bem inchado. A raiva persistia...
Uma semana depois, uma celebração especial iria ocorrer. Era o aniversário de morte do meu irmão, que havia se afogado quando eu tinha 5 anos. De repente, senti que algo diferente tomava conta de mim. Era como se alguém me dissesse no ouvido:"Acorda"..
Via meu pai, triste pelos cantos. Ele nem me olhava, e eu às vezes imaginava que era por vergonha pela pedra atirada, mas outras percebia que não era bem essa a razão.
Comecei a me lembrar da história do meu irmão. No dia de sua morte (na mesma semana em que eu agora estava machucado) ele foi chamado por amigos para ir a uma cachoeira (nadava como ninguém). O horário era o mesmo em que meus amigos me chamaram para ir para o barrancão, que tinha cerca de 6 metros (no qual eu era craque em subidas e descidas rápidas, inclusive com cordas e cipós).
Meu pai ordenou que meu irmão ficasse, que deixasse a "comida baixar", como dissemos em nossa terra, para evitar um mal súbito na hora de nadar. Meu irmão prometeu que não entraria na água, e foi com os colegas. Ao tentar observar, do alto, se um poço oferecia risco, caiu e teve uma congestão. Morreu sem chances de socorro.
Ao lembrar de todos estes detalhes, olhei para o meu pai de novo e senti um nó na garganta. Ele estava ali, olhando para o vazio, com um cigarro de palha na mão, suspirando de vez em quando. Então percebi que o velho não era um "chato que queria impedir minha diversão", ou "um maluco que cismou de exigir obediência", mas, sim, um pai que não queria ver outro filho correndo riscos desnecessários. Não queria perder outro fiho por se omitir. Aquela pedra, dolorosa, que me fez parar e proferir vários palavrões, foi o jeito dele de me dizer: "Filho, eu não quero te perder. Eu te amo, e vou fazer o que for preciso para evitar que você se vá, como seu irmão".
A lágrima desceu como uma enxurrada do meu rosto. Me aproximei do meu pai, mancando (o pé doía pra cassete, pode acreditar), mas já com outra postura. Pela primeira vez, abracei meu velho pelas costas, enlaçando-o pelo pescoço, e dei-lhe um beijo no rosto. "Que é isso, muleque?", perguntou surpreso, e no seu jeito bronco (que não tinha como mudar mesmo..rsrsrs).
"Pai, me perdoe!".
"Perdoar, o que?".
"Por não ter entendido o senhor. Eu devia ter obedecido. Agora entendo, pai... era medo, né?"
O velho se derramou em lágrimas e confirmou o que meu coração já antecipou. "Você tem umas brincadeiras perigosas, filho. Seu irmão também era bom no que fazia, mas morreu, e hoje estamos nos preparando para mais uma missa por ele".
Dei outro beijo no meu pai e garanti: No que depender de mim, velho, pode ficar tranquilo. Vou tomar muito cuidado, com certeza, em tudo que eu fizer. Só não garanto que vou perder o medo, porque senão..., como vou continuar a ser bam-bam-bam, né?". Nós rimos.
E foi neste dia que eu entendi: Mesmo os gestos mais estranhos, mais complicados, mais chatos... podem ser encarados como gestos de amor. Claro que você não precisa aceitar os gestos, não precisa concordar com eles, mas pode, com certeza, agradecer pela intenção, compreender a pessoa que praticou o ato.
Meu pai não sabia como expressar seu amor. Era acostumado a mandar, a ser obedecido, e para ele esta era a maneira de garantir a proteção dos seus filhos. Nesta sua forma de agir, entrava, sim, a violência, mas nunca por maldade. Era um recurso, um dos poucos que ele conhecia. Se tivesse aprendido outros, com certeza os teria usado.
Por isso eu sempre aconselho a quem quer que seja: se está passando por dificuldades de relacionamento com seus pais, irmãos, parentes, ou amigos, procure sempre descobrir, primeiro: "Qual é a intenção positiva desta pessoa ao ter esta atitude?".
De repente, você acaba descobrindo que, de uma maneira nem sempre positiva, esta pessoa está apenas te dizendo: "EU TE AMO".
Dê-lhe novas opções de comportamento, rejeite as antigas, e se estes comportamentes forem muito destrutivos, procure ajuda ou se afaste, mas jamais  deixe de lado o primordial: valorize a intenção e devolva o que de melhor puder oferecer a esta pessoa.

Minha querida alma, seja fonte de compreensão, seja fonte de carinho

Um comentário:

  1. Linda história... me fez repensar muitas coisas e em como me sinto ao ter certas discussões com meus pais e irmãos... Obrigado, Toninho.

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